Bem vindo ao meu universo! Neste blog você encontrará textos de uma garota de 21 anos, Ana Teresa Araújo Viana. Alguns textos são reflexões sobre diversos assuntos, outros são apenas o resultado de alguma madrugada inspiradora. Sem mais delongas, Deixa a Alma Respirar!







terça-feira, 12 de novembro de 2013

Admirável gado novo ou A dor comum.

Loretta era uma jovem qualquer com alma de gente mais velha. Desses tipos encantadores que às vezes encontramos por aí. Um tipo que costuma colecionar livros ao invés de roupas, que sonha viagens pela Europa e não sapatos de sola vermelha. Que queria viver em Tróia ou na Grécia Antiga. Do tipo que morre de medo de se tornar alguém igual a todo mundo.
Loretta sempre fora diferente, pensativa. Pois bem: adorava pensar o mundo. E tinha idéias muitíssimo interessantes! E costumava escrever também: amava o jeito como a caneta arranhava o papel, as letras se derramando, sílabas se compondo, palavras jorrando... Esse espetáculo surdo exercia sobre Loretta grande fascínio e atração.
Mas o tempo passou e Loretta foi sendo empurrada vida afora, às vezes brusca, outras vezes docemente. O passar dos anos nem sempre era afável... A obrigação de crescer, de fazer escolhas, de fazer parte da população economicamente ativa, tudo isso consumia muito tempo e energia e muitas vezes Loretta se sentia exaurida. Pensar foi se tornando aos poucos um luxo, sentir já não era tão fácil e Loretta temia que o dia-a-dia asfixiasse sua sensibilidade.
Ah, Loretta, como era bom tirar a tarde de folga, ter tanto tempo para pensar; que exercício maravilhoso e tão pouco utilizado! Pen-sar, pe-n-sar, pens-ar, simples e puramente. Imaginar coisas bobas e infantis: o porquê de as melancias serem vermelhas e não azuis. Imaginar coisas de adulto, coisas que devem ser imaginadas: o que é preciso para que haja a paz? Imaginar coisas de quase-adulto, difíceis de serem respondidas mas totalmente coerentes: quem inventou a tristeza, a tragédia, a fome, o extermínio?
Mas as tardes de folga eram cada vez mais raras: Loretta subia na hierarquia de sua profissão. Mais dinheiro na conta bancária, mais trabalho para casa, menos tempo sobrando. Loretta não tinha mais tempo para escrever. No início lamentou, mas depois esqueceu. Escrever agora era algo restrito aos cartões de Natal.
Loretta se olhava no espelho e não se lembrava mais da jovem que sonhava viagens pela Europa, da jovem que colecionava livros, que morria de medo de se tornar igual a todo mundo. A imagem refletida era a de uma mulher cansada, soterrada pelos afazeres, destruída pelo cotidiano, perdida de si mesma. De alguém que desistira de seus sonhos.
Quando Loretta se deu conta disso, chorou. Muito.
Porque às vezes dói se tornar alguém igual a todo mundo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Não necessariamente uma opinião, simplesmente uma mera reflexão.

Não tenho aquela sabedoria antiga, característica de inúmeras mulheres - minhas irmãs ancestrais - que apenas sorriam diante dos problemas e diziam com os olhos que não se preocupe, pois o tempo irá cuidar.
Não tenho essa sabedoria inerente às mulheres bem-educadas de antigamente, essas mulheres que sabiam se calar e se dizer em momentos exatos, e se fazer, e se conter quando fosse necessário.
Mulheres que criavam dezenas de crianças até transformá-las em seres adultos e apesar de tanta preocupação e afazeres, não temiam o futuro de nenhum de seus filhos, pois sabiam que, de alguma forma, o tempo, a vida ou Deus - ou tudo isso junto - iria se encarregar de fazer dar certo.
Aquela sabedoria das mulheres passadas, que sabiam relevar, e ceder e esperar e ser verdadeiramente o pilar de uma família, essa sabedoria eu não tenho... ou ainda não adquiri.
Mulheres que se impunham e se faziam respeitar através de um único olhar. Mulheres que nasciam sabendo que o silêncio não é sinônimo de fraqueza.
Porque essa sabedoria não parece combinar com a vida moderna, que nos exige palavras, e gestos e posturas e opiniões sobre tudo e sobre todos, vida que indiretamente nos faz esboçar grandes e barulhentas reações onde antigamente caberia silêncio e paciência - o que não necessariamente significa submissão, mas isso nos parece impossível de entender.
A sabedoria de ser quem se é sem escândalos, sem gritos ou baixarias, sem necessidade de expor a todo custo o que penso ou o que quero, sem essa necessidade irritante de ganhar todas as discussões - mesmo que não tenhamos os melhores argumentos - ah, essa sabedoria parece perdida.
Será que nessa histórica caminhada onde nos mostramos competentes, capazes, onde defendemos nosso espaço social, político e público, onde conquistamos nossos tão sonhados direitos, será que nessa caminhada tão linda e tão importante, acabamos perdendo nossa sabedoria feminina? Nossa delicadeza, ternura, nossa capacidade de amar um amor que somente as mulheres - mães de toda a existência - possuem? Se sim, não sei se isso representa evolução ou retrocesso.
Ser igual ao homem... não sei se isso é natural ou até mesmo benéfico. Afinal, a sabedoria antiga nos ensina sobre o Yin e o Yang, o ponto de equilíbrio, a doçura e a força, o dia e a noite, o céu e o mar.
Só sei que em algumas horas eu gostaria de ter a sabedoria das mulheres antigas... quem sabe assim eu teria mais paz e seria mais feliz.